Hoje aconteceram alguns fatos que levaram a me posicionar.
Pensei muito antes de escrever esse post, e sei que pode causar certo "barulho", mas se está publicado é porque eu avaliei a situação muitas vezes antes de apertar o botão.
Muito já se falou sobre as botas da Nestlé e da Johnson, e hoje recebi a bota da Sadia. Nos três, a maior causa de indignação dos reprovados foram os critérios, que não ficaram claros e deixaram de contemplar pessoas com excelentes níveis de inglês (caso da J&J) e alunos do curso de Comunicação Social com habilitação em Publicidade (caso da Nestlé e da Sadia, que ao que parece não entendem Comunicação Social com habilitação em Publicidade como Publicidade). Os 3 processos são conduzidos pela Cia. de Talentos, uma das melhores consultorias do mercado quando se fala na seleção de jovens.
Na minha cabeça é muito incoerente que esse tipo de situação aconteça com uma consultoria que conduz outros tantos processos de sucesso, como é o da Unilever, um dos mais concorridos do país e que acabou de me enviar um e-mail explicando o prazo de avaliação da próxima etapa. Claro e objetivo, excelente! Fico em dúvida se o problema está no processo ou na empresa contratante.
A falta de transparência nos feedbacks é só um pedacinho do grande iceberg de situações as quais somos expostos nos processos seletivos. Por muitas vezes eu tento colocar uma visão mais aberta aqui no blog, onde entendo o ponto de vista dos candidatos e ao mesmo tempo tento me colocar como uma consultoria que precisa selecionar 15 candidatos entre milhares, mas certas coisas precisam ser ditas.
Além dos 'critérios misteriosos' que são utilizados nas triagem, somos submetidos a perguntas e mais perguntas que parecem fugir totalmente do propósito de uma simples inscrição. Precisamos falar de conquistas, derrotas, contar aventuras, traumas, brinquedos da infância e explicar na mesma questão porque o céu é azul e porque queremos aquela empresa, quando na verdade estamos iniciando nossa jornada no mercado de trabalho e tudo é uma grande novidade. Não podemos afirmar nada ainda...
As provas são outro assunto complicado.
Infelizmente já soube de muitas extremamente mal elaboradas, que chegam a apresentar erros grotescos de português nas próprias perguntas. E também existem as provas "sem noção", com perguntas da "NASA", como o exemplo abaixo:
Dois espiões se encontram e dizem: “Os professores estão para a escola, assim como as ascensoristas estão para os elevadores, assim como as aeromoças estão para os aviões”. A senha é:
a) O perigo está no alto da colina!
b) Cuidado quando estiver com os colegas!
c) Estou para viajar logo!
d) As pessoas estão por dentro do assunto!
e) Esteja com os seus estudos em dia!
(Se existe alguma lógica, por favor, me expliquem!)
Sem contar na falta de cuidado e preparo do conteúdo: questões podem ser encontradas facilmente no Google, copiadas na íntegra de vestibulares, concursos, ENEM, Olimpíadas de Matemáticas e outras fontes. Oops! Falei de um tabu? Sim, falei.
Isso tudo precisa ser dito! Por diversas vezes, os candidatos são desrespeitados com processos mal feitos, mal estruturados e que nos frustam barbaramente. Depositamos nosso potencial ali e temos expectativas, o problema é que nos formamos ou estamos prestes a nos formar e seremos despejados em um mercado de trabalho exigente e comprimido. Com poucas oportunidades, nos submetemos a tudo isso.
E como as empresas e consultorias detém o "controle" sobre nossa entrada no mercado, ficamos até mesmo coagidos em reagir, vide os e-mails que enviamos para as consultorias questionando essas situações: são tão polidos que quase pedem desculpas pelo incômodo.
Os exemplos não param...
Soube recentemente que no processo de uma rede de supermercados foi sugerido aos candidatos uma visita com observação a uma das lojas do grupo para preparar a apresentação de uma etapa. Eu sei que esse é o negócio da empresa, mas estou muito errada em achar isso um absurdo? Estamos falando de processos seletivos, e só! Competências, habilidades e experiências devem ser avaliadas, e isso é um pouco demais para apenas uma etapa.
Hoje mesmo fiz a "avaliação de TI" da Penalty. Sem muitos comentários, eles apresentam alguns formulários e tarefas extremamente básicas em programas como o Word, Excel e PowerPoint, em um ambiente virtual muito lento e difícil de acessar. Era preciso apenas preencher com nossos dados e informações pessoais, porém campos deixados em branco, tentar mais de uma vez e estourar o tempo estipulado descontam pontos! Pela tabela, eu devo ter perdido 5 pontos porque o campo "série" da minha Carteira de Trabalho tem 4 dígitos e o campo do formulário tinha 7. É só pra mim que isso soa como um absurdo, avaliar o preenchimento de um formulário?!
Não posso deixar de falar também no pré requisito "Sou um poste sob pressão!". Em praticamente todas as dinâmicas e em algumas entrevistas somos testados em situações de adversidade e todo mundo precisa saber se colocar, se defender e manter a calma, como manda o figurino do "bom trainee". E na maioria das vezes, nem mesmo os recrutadores são tudo isso que esperam da gente. Curioso, não?
Já não bastam as inúmeras etapas e cobranças, ainda temos que estar sempre prontos para reagir, sorrir e mostrar motivação. Para nós, é proibido ter reações ruins, pode demonstrar traços de personalidade agressiva, fora do padrão.
Precisamos ser super-heróis o tempo inteiro, ignorar quando somos ignorados, entender quando nada está claro e ficar em silêncio diante de todo esse cenário burlesco onde somos expostos e despidos de todas as formas possíveis para que encontrem o "candidato perfeito", que na verdade não existe, assim como não existe a empresa perfeita e me permito perguntar se um dia existirá o processo seletivo perfeito.
Acredito que todas essas sensações serão partilhadas por outros tantos candidatos humanos e imperfeitos, que tem o mesmo desejo de entrar no mercado, aprender muito e fazer diferente para todos que vierem depois de nós.